Ciência & Tecnologia
Inovação

OpenAI reconhece estudante angolana nos Estados Unidos por criar plataforma de IA que ajuda profissionais a melhorar currículos

OpenAI reconhece estudante angolana nos Estados Unidos por criar plataforma de IA que ajuda profissionais a melhorar currículos
Foto por:
vídeo por:
Cedidas

Muitos currículos falham antes mesmo de uma entrevista acontecer. Não porque os candidatos não tenham talento, experiência ou capacidade técnica, mas porque o papel ou o PDF simplesmente não consegue contar a história certa.

Foi precisamente essa constatação que levou Helena Pedro, engenheira de software angolana actualmente radicada nos Estados Unidos, a desenvolver uma plataforma baseada em inteligência artificial capaz de acompanhar a evolução de currículos profissionais ao longo do tempo.

O projecto chama-se Resume Feedback Platform: AI Resume Review with Version Tracking e foi recentemente destacado no Handshake AI Showcase, ligado ao OpenAI Developers x Handshake Codex Creator Challenge, iniciativa internacional que reúne soluções tecnológicas focadas em inteligência artificial e desenvolvimento de carreira.

Mas a origem da ideia começou muito antes do reconhecimento internacional.

“O currículo não conseguia mostrar quem aquelas pessoas realmente eram”

Helena conta que o “clique” surgiu durante conversas com profissionais extremamente qualificados que lhe pediam ajuda para orientar as suas carreiras.

“Via pessoas muito inteligentes, com experiência e potencial, mas os currículos não conseguiam transmitir isso. Muitas vezes, a empresa procurava exactamente aquele perfil, mas o recrutador nunca chegava a perceber”, explica.

Foi aí que começou a olhar para o currículo não apenas como um documento administrativo, mas como uma competência própria, algo que também precisa de estratégia, clareza e evolução contínua.

A ideia da plataforma nasceu dessa percepção: talento nem sempre é suficiente quando a comunicação profissional falha.

De Engenharia de Petróleos para Inteligência Artificial

Curiosamente, a relação de Helena com tecnologia não começou directamente em Computer Science.

Durante a licenciatura em Engenharia de Petróleos, em Angola, teve contacto com disciplinas de Informática, Programação e Algoritmos. Foi nesse período que percebeu que existia um lado da engenharia que lhe despertava um interesse muito maior: resolver problemas através da tecnologia.

Um mentor teve um papel decisivo nesse percurso, incentivando-a a aprofundar conhecimentos fora da universidade através de cursos e estudo contínuo.

Essa dedicação acabaria por levá-la a trabalhar como engenheira de software num dos maiores bancos do país, experiência que consolidou a sua base em sistemas reais, dados e desenvolvimento de software.

Hoje, vive nos Estados Unidos, onde conclui um mestrado em Computer Science enquanto desenvolve soluções tecnológicas focadas em IA e carreira profissional.

O currículo como um “produto vivo”

Ao candidatar-se a oportunidades internacionais, Helena percebeu que os currículos deixavam de ser documentos estáticos.

“Comecei a perceber que o currículo se torna quase um produto vivo. Está sempre a ser ajustado dependendo da vaga, do mercado e do feedback recebido”, afirma.

O problema é que, no meio de múltiplas versões e alterações constantes, muitos profissionais acabam por perder noção do que realmente melhorou.

Foi precisamente esse detalhe que moldou a arquitectura da plataforma.

Ao contrário de muitas ferramentas tradicionais de análise de currículos, a Resume Feedback Platform não avalia apenas um único ficheiro. O sistema acompanha diferentes versões do currículo, identifica melhorias, detecta novos problemas e mostra ao utilizador como o documento evoluiu ao longo do tempo.

“O objectivo não era apenas gerar feedback com IA, mas preservar contexto e ajudar as pessoas a acompanhar o próprio progresso”, explica.

Um “mentor digital” que acompanha evolução

Na prática, a plataforma funciona como um revisor inteligente de currículos.

Depois do upload, a IA analisa o conteúdo do documento e devolve feedback estruturado: pontos fortes, problemas prioritários e qualidade geral do currículo.

Quando uma nova versão é carregada, o sistema compara automaticamente os dois documentos e passa a responder perguntas mais específicas:

- O que melhorou?

- O que ainda precisa de atenção?

- Que novos problemas surgiram?

- Esta nova versão ficou realmente melhor?

Segundo Helena, o objectivo é transformar o processo de melhoria profissional numa experiência mais consciente, organizada e contínua.

A engenharia invisível por trás da experiência

Embora a interface pareça simples para o utilizador, existe uma arquitectura técnica complexa nos bastidores.

Uma das decisões mais importantes foi tornar o processamento da IA assíncrono. Em vez de obrigar o utilizador a esperar enquanto o sistema processa o currículo, a plataforma guarda imediatamente o ficheiro e executa a análise em segundo plano.

“Queria que a experiência fosse rápida e estável, mesmo quando a IA demora mais tempo ou existe alguma falha temporária”, explica.

A plataforma também separa diferentes tipos de dados: SQL para utilizadores, versões e permissões; MongoDB para os documentos de feedback gerados pela IA; e sistemas de armazenamento dedicados para os ficheiros de currículo.

Por trás do projecto houve semanas de prototipagem, testes, refinamento de prompts e correcção de respostas genéricas ou alucinações produzidas pela IA.

“A IA sozinha não resolve problemas”

Apesar do entusiasmo global em torno da inteligência artificial, Helena evita discursos simplistas sobre automação.

Para ela, o verdadeiro desafio está em transformar IA em sistemas úteis, confiáveis e realmente centrados nas pessoas.

“A inteligência artificial sozinha não resolve problemas automaticamente. O importante é criar workflows que façam sentido para os utilizadores”, afirma.

Essa visão também influencia a forma como observa o futuro do trabalho.

Helena acredita que os próximos anos não serão marcados apenas por substituição de profissionais, mas por uma profunda reconfiguração das funções existentes. Competências humanas como criatividade, pensamento crítico, adaptação e resolução de problemas deverão ganhar ainda mais importância.

“Angola não é apenas consumidora de tecnologia”

Ao falar sobre o ecossistema tecnológico angolano, Helena insiste num ponto: existe muito mais talento local do que normalmente se imagina.

“Muitas vezes os holofotes estão sempre voltados para os mesmos países, mas há jovens angolanos extremamente talentosos a construir coisas relevantes”, diz.

Para ela, um dos grandes desafios dos próximos anos será criar tecnologias mais contextualizadas às realidades africanas e lusófonas, algo que muitas plataformas globais ainda não conseguem compreender totalmente.

O reconhecimento internacional do projecto acabou por reforçar precisamente essa convicção: com acesso às ferramentas e oportunidades certas, profissionais angolanos conseguem construir soluções com potencial global.

O próximo passo

Embora a plataforma já esteja funcional, Helena vê o projecto como apenas o início.

O objectivo, explica, é transformar a Resume Feedback Platform num ecossistema mais amplo de desenvolvimento profissional, onde IA possa ajudar pessoas não apenas a melhorar currículos, mas também a acompanhar crescimento, tomar decisões de carreira e preparar-se melhor para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e digital.

No fundo, a ideia parece simples: tornar o talento mais visível.

Mas, num mundo onde oportunidades muitas vezes começam com um documento de uma página, talvez isso seja muito mais revolucionário do que parece.

6galeria

Veloso de Almeida

Repórter

Veloso estudou Comunicação Social no Instituto Superior Técnico de Angola (ISTA) e estagia como jornalista no portal ONgoma News.

Muitos currículos falham antes mesmo de uma entrevista acontecer. Não porque os candidatos não tenham talento, experiência ou capacidade técnica, mas porque o papel ou o PDF simplesmente não consegue contar a história certa.

Foi precisamente essa constatação que levou Helena Pedro, engenheira de software angolana actualmente radicada nos Estados Unidos, a desenvolver uma plataforma baseada em inteligência artificial capaz de acompanhar a evolução de currículos profissionais ao longo do tempo.

O projecto chama-se Resume Feedback Platform: AI Resume Review with Version Tracking e foi recentemente destacado no Handshake AI Showcase, ligado ao OpenAI Developers x Handshake Codex Creator Challenge, iniciativa internacional que reúne soluções tecnológicas focadas em inteligência artificial e desenvolvimento de carreira.

Mas a origem da ideia começou muito antes do reconhecimento internacional.

“O currículo não conseguia mostrar quem aquelas pessoas realmente eram”

Helena conta que o “clique” surgiu durante conversas com profissionais extremamente qualificados que lhe pediam ajuda para orientar as suas carreiras.

“Via pessoas muito inteligentes, com experiência e potencial, mas os currículos não conseguiam transmitir isso. Muitas vezes, a empresa procurava exactamente aquele perfil, mas o recrutador nunca chegava a perceber”, explica.

Foi aí que começou a olhar para o currículo não apenas como um documento administrativo, mas como uma competência própria, algo que também precisa de estratégia, clareza e evolução contínua.

A ideia da plataforma nasceu dessa percepção: talento nem sempre é suficiente quando a comunicação profissional falha.

De Engenharia de Petróleos para Inteligência Artificial

Curiosamente, a relação de Helena com tecnologia não começou directamente em Computer Science.

Durante a licenciatura em Engenharia de Petróleos, em Angola, teve contacto com disciplinas de Informática, Programação e Algoritmos. Foi nesse período que percebeu que existia um lado da engenharia que lhe despertava um interesse muito maior: resolver problemas através da tecnologia.

Um mentor teve um papel decisivo nesse percurso, incentivando-a a aprofundar conhecimentos fora da universidade através de cursos e estudo contínuo.

Essa dedicação acabaria por levá-la a trabalhar como engenheira de software num dos maiores bancos do país, experiência que consolidou a sua base em sistemas reais, dados e desenvolvimento de software.

Hoje, vive nos Estados Unidos, onde conclui um mestrado em Computer Science enquanto desenvolve soluções tecnológicas focadas em IA e carreira profissional.

O currículo como um “produto vivo”

Ao candidatar-se a oportunidades internacionais, Helena percebeu que os currículos deixavam de ser documentos estáticos.

“Comecei a perceber que o currículo se torna quase um produto vivo. Está sempre a ser ajustado dependendo da vaga, do mercado e do feedback recebido”, afirma.

O problema é que, no meio de múltiplas versões e alterações constantes, muitos profissionais acabam por perder noção do que realmente melhorou.

Foi precisamente esse detalhe que moldou a arquitectura da plataforma.

Ao contrário de muitas ferramentas tradicionais de análise de currículos, a Resume Feedback Platform não avalia apenas um único ficheiro. O sistema acompanha diferentes versões do currículo, identifica melhorias, detecta novos problemas e mostra ao utilizador como o documento evoluiu ao longo do tempo.

“O objectivo não era apenas gerar feedback com IA, mas preservar contexto e ajudar as pessoas a acompanhar o próprio progresso”, explica.

Um “mentor digital” que acompanha evolução

Na prática, a plataforma funciona como um revisor inteligente de currículos.

Depois do upload, a IA analisa o conteúdo do documento e devolve feedback estruturado: pontos fortes, problemas prioritários e qualidade geral do currículo.

Quando uma nova versão é carregada, o sistema compara automaticamente os dois documentos e passa a responder perguntas mais específicas:

- O que melhorou?

- O que ainda precisa de atenção?

- Que novos problemas surgiram?

- Esta nova versão ficou realmente melhor?

Segundo Helena, o objectivo é transformar o processo de melhoria profissional numa experiência mais consciente, organizada e contínua.

A engenharia invisível por trás da experiência

Embora a interface pareça simples para o utilizador, existe uma arquitectura técnica complexa nos bastidores.

Uma das decisões mais importantes foi tornar o processamento da IA assíncrono. Em vez de obrigar o utilizador a esperar enquanto o sistema processa o currículo, a plataforma guarda imediatamente o ficheiro e executa a análise em segundo plano.

“Queria que a experiência fosse rápida e estável, mesmo quando a IA demora mais tempo ou existe alguma falha temporária”, explica.

A plataforma também separa diferentes tipos de dados: SQL para utilizadores, versões e permissões; MongoDB para os documentos de feedback gerados pela IA; e sistemas de armazenamento dedicados para os ficheiros de currículo.

Por trás do projecto houve semanas de prototipagem, testes, refinamento de prompts e correcção de respostas genéricas ou alucinações produzidas pela IA.

“A IA sozinha não resolve problemas”

Apesar do entusiasmo global em torno da inteligência artificial, Helena evita discursos simplistas sobre automação.

Para ela, o verdadeiro desafio está em transformar IA em sistemas úteis, confiáveis e realmente centrados nas pessoas.

“A inteligência artificial sozinha não resolve problemas automaticamente. O importante é criar workflows que façam sentido para os utilizadores”, afirma.

Essa visão também influencia a forma como observa o futuro do trabalho.

Helena acredita que os próximos anos não serão marcados apenas por substituição de profissionais, mas por uma profunda reconfiguração das funções existentes. Competências humanas como criatividade, pensamento crítico, adaptação e resolução de problemas deverão ganhar ainda mais importância.

“Angola não é apenas consumidora de tecnologia”

Ao falar sobre o ecossistema tecnológico angolano, Helena insiste num ponto: existe muito mais talento local do que normalmente se imagina.

“Muitas vezes os holofotes estão sempre voltados para os mesmos países, mas há jovens angolanos extremamente talentosos a construir coisas relevantes”, diz.

Para ela, um dos grandes desafios dos próximos anos será criar tecnologias mais contextualizadas às realidades africanas e lusófonas, algo que muitas plataformas globais ainda não conseguem compreender totalmente.

O reconhecimento internacional do projecto acabou por reforçar precisamente essa convicção: com acesso às ferramentas e oportunidades certas, profissionais angolanos conseguem construir soluções com potencial global.

O próximo passo

Embora a plataforma já esteja funcional, Helena vê o projecto como apenas o início.

O objectivo, explica, é transformar a Resume Feedback Platform num ecossistema mais amplo de desenvolvimento profissional, onde IA possa ajudar pessoas não apenas a melhorar currículos, mas também a acompanhar crescimento, tomar decisões de carreira e preparar-se melhor para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e digital.

No fundo, a ideia parece simples: tornar o talento mais visível.

Mas, num mundo onde oportunidades muitas vezes começam com um documento de uma página, talvez isso seja muito mais revolucionário do que parece.

6galeria

Artigos relacionados

Thank you! Your submission has been received!
Oops! Something went wrong while submitting the form