Caneta e Papel

COMO ENSINAR A PAZ A QUEM NUNCA VIU A GUERRA?

COMO ENSINAR A PAZ A QUEM NUNCA VIU A GUERRA?
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Hoje o David ficou em casa. Tem cinco anos e acordou com aquele entusiasmo puro de quem descobre, logo pela manhã, que não há escola. Saltou da cama, correu para a sala e perguntou ao pai, com os olhos a brilhar:

— Hoje é feriado, não é?

— É sim, filho — respondeu João, enquanto lhe preparava o mata-bicho.

— Mas é feriado de quê?

João hesitou por um instante. “É o Dia da Paz”, disse.

David parou, curioso.

— O que é a paz?

A pergunta ficou a ecoar. João, homem sereno, habituado a organizar ideias com lógica, sentiu-se desarmado. Como explicar a um menino de cinco anos, que só conhece o conforto da sua casa, a paz de uma noite sem sobressaltos, o que significa um país inteiro viver em guerra… e depois, finalmente, calar as armas?

David nunca ouviu tiros. Nunca viu tanques nas ruas. Nunca teve medo de sair de casa. Cresce num país em reconstrução, com feridas ainda visíveis, mas com uma nova esperança a germinar. Para ele, a paz é natural — como a luz do dia ou a voz da mãe.

Mas João sabe que não foi sempre assim. Lembra-se do medo, da incerteza, dos caminhos interditos, das histórias sussurradas ao fim do dia. Lembra-se da sensação de um país suspenso. E é precisamente por isso que a pergunta do filho o comove: porque é sinal de que a guerra já não faz parte do seu mundo.

João então decide responder com cuidado. Não fala de bombas nem de sofrimento. Fala de valor.

Diz-lhe que a paz é ele poder brincar à vontade, ir à escola, fazer perguntas e ser ouvido. Que é viver num lugar onde as pessoas discordam sem se magoar, onde se pode escolher, votar, mudar.

Explica que houve um tempo em que isso não era possível. Que o país teve de lutar — não só com armas, mas com coragem e diálogo — para que hoje ele pudesse viver assim: em segurança.

David ouve em silêncio. Depois pergunta:

— E a paz também se comemora?

João sorri.

— Claro que sim, filho. A paz é uma vitória. E vitórias celebram-se.

Ensinar a paz a quem nunca viu a guerra, pensa João, é ensinar a valorizar. É mostrar que ela é frágil, preciosa, e que não está garantida para sempre. Que é feita de escolhas — pequenas e grandes — de respeito, tolerância e memória.

Nesse dia, David não foi à escola. Mas aprendeu, sem saber, uma das lições mais importantes da vida: que viver em paz é um privilégio. E manter a paz… é um dever de todos.

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António Páscoa

Publicitário

Desde Janeiro de 2017, gere activamente a missão e os objectivos da ISENTA. É um dos melhores especialistas em Publicidade neste momento, em Angola, onde vive há uma década. Com uma carreira com mais de 20 anos, o seu portfolio inclui cargos de gestão em algumas das mais importantes agências publicitárias do mundo.

Hoje o David ficou em casa. Tem cinco anos e acordou com aquele entusiasmo puro de quem descobre, logo pela manhã, que não há escola. Saltou da cama, correu para a sala e perguntou ao pai, com os olhos a brilhar:

— Hoje é feriado, não é?

— É sim, filho — respondeu João, enquanto lhe preparava o mata-bicho.

— Mas é feriado de quê?

João hesitou por um instante. “É o Dia da Paz”, disse.

David parou, curioso.

— O que é a paz?

A pergunta ficou a ecoar. João, homem sereno, habituado a organizar ideias com lógica, sentiu-se desarmado. Como explicar a um menino de cinco anos, que só conhece o conforto da sua casa, a paz de uma noite sem sobressaltos, o que significa um país inteiro viver em guerra… e depois, finalmente, calar as armas?

David nunca ouviu tiros. Nunca viu tanques nas ruas. Nunca teve medo de sair de casa. Cresce num país em reconstrução, com feridas ainda visíveis, mas com uma nova esperança a germinar. Para ele, a paz é natural — como a luz do dia ou a voz da mãe.

Mas João sabe que não foi sempre assim. Lembra-se do medo, da incerteza, dos caminhos interditos, das histórias sussurradas ao fim do dia. Lembra-se da sensação de um país suspenso. E é precisamente por isso que a pergunta do filho o comove: porque é sinal de que a guerra já não faz parte do seu mundo.

João então decide responder com cuidado. Não fala de bombas nem de sofrimento. Fala de valor.

Diz-lhe que a paz é ele poder brincar à vontade, ir à escola, fazer perguntas e ser ouvido. Que é viver num lugar onde as pessoas discordam sem se magoar, onde se pode escolher, votar, mudar.

Explica que houve um tempo em que isso não era possível. Que o país teve de lutar — não só com armas, mas com coragem e diálogo — para que hoje ele pudesse viver assim: em segurança.

David ouve em silêncio. Depois pergunta:

— E a paz também se comemora?

João sorri.

— Claro que sim, filho. A paz é uma vitória. E vitórias celebram-se.

Ensinar a paz a quem nunca viu a guerra, pensa João, é ensinar a valorizar. É mostrar que ela é frágil, preciosa, e que não está garantida para sempre. Que é feita de escolhas — pequenas e grandes — de respeito, tolerância e memória.

Nesse dia, David não foi à escola. Mas aprendeu, sem saber, uma das lições mais importantes da vida: que viver em paz é um privilégio. E manter a paz… é um dever de todos.

António Páscoa

Publicitário

Desde Janeiro de 2017, gere activamente a missão e os objectivos da ISENTA. É um dos melhores especialistas em Publicidade neste momento, em Angola, onde vive há uma década. Com uma carreira com mais de 20 anos, o seu portfolio inclui cargos de gestão em algumas das mais importantes agências publicitárias do mundo.

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